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SEGUNDO DIA - Seu Paulo

Bem que a Terezinha avisou: A casa é bem cuidadinha, cada detalhe pensado no capricho...  Um cremoso suco de maracujá estava sendo feito por Irene, a esposa do Sr. Paulo, Solenta já foi logo degustando aquela delícia. O cuidado com a casa reflete no cuidado esmerado que Irene dedica ao Sr. Paulo. Ela tem regularmente a ajuda do irmão, o que possibilita que ela possa ter momentos de respiro do ofício de cuidar. Sr. Paulo se comunica com os olhos, levemente com a cabeça e esboça um beijo quando solicitado.
O ENCONTRO
Solenta aparece no quarto. Seu Paulo olha. Parece um olhar de espanto, espanto bom ou espanto ruim?  Como saber? Todo um modo de comunicação que é ainda uma grande incógnita para Solenta. As vezes um embaraço, um medo de estar sendo inconveniente.   De repente, surge a pergunta: "Como vocês se conheceram?", feita por Terezinha. Solenta se surpreende com a pergunta que parece ter saído de sua própria  boca. Irene puxa o fio da história. Lá no Cartório Eleitoral de Chã…

O PRIMEIRO DIA - IMPRESSÕES

Para além da descrição, da narrativa do ocorrido em cada visita do PAD, que já é coisa por demais de difícil, existe, também, uma série de pensamentos, sensações e observações que gostaria de conseguir escrever. A possibilidade de entrar nas residências , no mundo dessas pessoas, seus pertences, seus retratos, suas intimidades,  a forma como se organizam para acolher as dificuldades e limitações, é algo que permite acessar mais rapidamente o universo de cada uma delas. E isso abre portas...Portas da memória, da história pessoal e familiar, da singularidade de cada ser. É assim que o palhaço pode mais facilmente encontrar os ganchos para uma relação verdadeira com  o paciente e seus cuidadores. Assim, essas pessoas  podem se sentir vistas e ouvidas verdadeiramente. Esse trabalho miúdo, corpo a corpo, respiração a respiração  possibilita encontros verdadeiramente densos e até mesmo transformadores. Transformadores de estados, energias e ....   e tanto mais que ainda nem sem nomear. Que ven…

O PRIMEIRO DIA - A SEGUNDA VISITA - Sr. João

Um calor exaustivo e a sensação de que poderia ficar elaborando a primeira visita pelo resto do dia, mas eu mesma pedi para serem duas nesse primeiro dia, então, vamos lá...Respira fundo que nem tudo são flores. Na segunda visita a recepção de cara não nos pareceu favorável. Dona Neli cuida sozinha de Seu João. 24 horas por dia, 7 dias por semana. Exausta, desamparada, desalentada... A sensação de que éramos um estorvo.  Terezinha   apresentou a palhaça Solenta e iniciou os seus procedimentos, que foram mais longos do que o esperado pois Seu João estava  com feridas que precisavam de uma atenção especial e Dona Neli precisava de uma orientação para cuidados posteriores. Solenta ficou na sala, esperando, olhando porta retratos, buscando brechas de abertura para conseguir acessar e sensibilizar Dona Neli. Esse caminho foi longo mas recompensador quando a fresta se abriu.... O fio foi o da cidade natal  deles:  Exu em Pernambuco, cidade de Luiz Gonzaga. E assim, o "Rei do Baião" abri…

O PRIMEIRO DIA - A PRIMEIRA VISITA - Sr Kaji

Prometo que só vou escrever isso uma vez: É impossível registrar um milésimo do que é cada experiência e eu fico sempre com a sensação de que estou sendo leviana com o tanto que fica de fora.
Mas lá vou eu com o menos de um milésimo que consigo escrever, descrever. A primeira visita, toda a ansiedade, a agonia, a felicidade e o medo. Troquei de roupa e me maquilei no banheirinho do hospital e esperei minha parceira, a enfermeira Terezinha, para rumarmos para nosso imponderável encontro.  Aquecendo as entranhas, o caldeirão interno... Chegando para as pessoas. O recepcionista do hospital Valdenor, o camarada Vanderlei que levou a mala até o carro, a moça ao telefone... cada um ao seu modo, pondo lenha pra aquecer esse caldeirão. O motorista Mauro que rapidamente entrou no jogo ajudando no aquecimento. Pausa para Terezinha contar um pouco sobre os pacientes e suas famílias. Nem vi o caminho se me pedirem para voltar nas casas eu não poderia pois quando dei por mim já estávamos na porta do Sr. K…

PAD Palhaço - Construindo um Caminho

Há 11 anos atrás, quando vi pela primeira vez o maravilhoso palhaço catalão Tortell Poltrona, criador da organização "Payasos sin fronteras", fui acometida de um "querer". Esse querer era o de participar de uma missão, como palhaça, para qualquer parte do mundo.O Payasos sin fronteras hoje existe em vários países e sua missão é "velar e melhorar as condições psíquicas em que vivem as pessoas, particularmente, meninas e meninos dos campos de refugiados, territórios em desenvolvimento e em situações de emergência em todo o mundo". Sempre disse para mim mesma que esse desejo de viajar para um lugar distante, para uma missão na África, Haiti, Kosovo...tinha muito mais a ver com uma vontade de crescimento pessoal do que achar que eu seria mais útil do outro lado do mundo do que em meu próprio país. Mas, nesse tempo, não deixei de pensar no que eu poderia fazer por aqui. E nessa trajetória, fui tendo idéias que cada vez deixavam mais próxima a concretizacão do…