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Reiko San

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Apesar do sol, o dia estava frio e Reiko San estava no terraço em sua cadeira de rodas. Natalina, a filha estava fazendo as unhas dela. Como da outra vez, estava impecavelmente bem cuidada, tanto que levou um tempo para Solenta perceber um hematoma que ela trazia no lado direito do rosto, resultado de uma queda.  Perto de Reiko San, Solenta parece desacelerar. Entra em um outro ritmo, outro pulsar. Começou entregando para  Reiko San o presente que havia feito para ela: um mini-travesseiro com um tecido azul de bolinhas brancas, igual ao de sua blusa, transformado em imã de geladeira. Solenta preparou esse regalo para ela pois uma das atividades dela é ir colocando imãs de diversas formas e cores em um quadro de metal. E, mais uma vez, Solenta não teve a menor noção se ela havia gostado do presente ou não. Ela pegou o imã, Natalina foi buscar o quadro para que ela o grudasse nele, mas ela não esboçou nenhuma expressão nem de agrado tampouco de desagrado.


O quadro de metal, os imãs e a s…

Vídeo Reiko San

Seu Fernando - O retorno

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Seu Fernando é o primeiro paciente que recebe o retorno de Solenta. A visita foi acompanhada pela enfermeira Ivy. No apartamento estavam Dona Maria, esposa e Fátima, a cuidadora. O filho Daniel não se encontrava. A recuperação de S. Fernando continua excelente.

O REENCONTRO
Quem abriu a porta foi Dona Maria, que não estava na visita anterior, e Solenta ficou muito feliz em conhecê-la, abraçou, beijou... S. Fernando se encontrava deitado no sofá, aconchegado embaixo da coberta, exatamente como da vez anterior. Seria preciso ser poeta para conseguir traduzir em palavras o que são os encontros com ele. É que cada encontro é poesia pura, assim como poesia é tudo que sai de sua boca. Solenta estava muito feliz em reencontrá-lo e ao que tudo indica a recíproca era verdadeira. De cara, ele retomou as palavras do encontro anterior: "PAZ, SAÚDE E ALEGRIA", e depois acrescentou mais duas: "AMOR E AMIZADE". Ele pronuncia essas palavras com tanta inteireza que é como se elas gan…

Eu vim de lá.... tão longe.....

Nosso Retrato

O Peixe Palhaço de Seu Fernando

Solenta se identificou com a eletricidade do peixe-palhaço

PAUSA

Uma pausa de duas semanas antes de começar a próxima etapa do trabalho: revisitar cada um dos pacientes. Tempo de assentar impressões e deixar brotar o que levarei de volta para o próximo encontro.

OITAVO DIA - Dona Reiko

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Chegamos à frente da casa, situada em uma rua bem tranquila. Dois sobrados geminados que se comunicam no andar de cima por uma abertura bem em frente a escada que subimos, uma sensação de espelho. Quem nos abriu o portão foi Francinete, que cuida da casa e nos levou até onde estava Dona Reiko e a filha Natalina, que é quem cuida dela. Dona Reiko acaba de fazer 84 anos e tem um diagnótico de demência. Apesar de falar bem o português, nos últimos tempos, só tem se comunicado em japonês. O ENCONTRO Ao chegarmos no andar de cima não encontramos de cara Dona Reiko, ela estava com Natalina no terraço que dá de frente para casa. Estava sentada em uma cadeira de rodas e foi impossível decifrar o que sentiu em relação à figura de Solenta. Tinha um expressão de surpresa mas era completamente enigmática. Surpresa boa? Surpresa ruim? Surpresa indiferente? Até agora não é possível responder. Solenta de cara se admirou com a figura, que parecia ter saído de um filme, com um "figurino" impec…

OITAVO DIA - Seu Fernando

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Foi a primeira vez que fomos a um apartamento. Até agora, todos os pacientes visitados moravam em casas. Subimos até o terceiro andar e Bete tocou a campainha. Atendeu a porta a simpática e sorridente cuidadora Fátima. Seu Fernando tem 81 anos, teve um AVC há muito pouco tempo e está tendo uma rápida recuperação. Sua esposa não estava em casa, trabalha o dia todo, e o filho Daniel, de pouco mais de 20 anos, é quem cuida do pai.                                                   
O ENCONTRO                                                                                                                                                    Seu Fernando estava deitado no sofá da sala, aconchegado embaixo do cobertor. Foi mais um amor à primeira vista. Quando Solenta se ajoelhou para cumprimentá-lo e pegou na sua mão ele começou a recitar um poema que engatou em outro que emendou em mais um. Terminou com uma recomendação: "quem tem mãe tem que zelar por ela." Solenta ficou em êxtase co…

Outro olhar

Hoje tive uma outra companheira de visitas, a enfermeira Bete. Terezinha entrou em férias e só volta daqui a um mês. Minha nova parceira escolheu dois novos pacientes que foram visitados hoje e serão novamente no dia 17 de junho. Dias 03 e 10 de junho não poderei fazer visitas. Quando Terezinha voltar, partiremos para a segunda visita dos primeiros pacientes.Assim, hoje fechei o ciclo de primeiras visitas. Foram 15 pacientes em dois meses, 15 universos, 15 possibilidades de mergulho, 15 jeitos de estar e observar.

SÉTIMO DIA - Dona Francisca

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Dona Francisca tem 62 anos e  é a mais nova paciente do PAD. Ao visitá-la na quarta-feira fazia apenas dois dias que ela havia saído da internação e voltado para casa. Ela está com sonda para receber alimentação subcutânia mas está conseguindo se alimentar via oral. A casa estava cheia: irmãs, marido, filhos e netos. Precisamente dos 8 aos 8O. Oito meses...

O ENCONTRO
Quando chegamos, Seu José, o marido, nos esperava na garagem da casa. Começaram as apresentações da família, treze pessoas além de Dona Francisca. Solenta se sentiu em casa com uma família tão grande e tão acolhedora. Dona Francisca a recebeu muito bem e parecia muito satisfeita com a visita inesperada. Quando Terezinha ficou com Dona Francisca para seus procedimentos de enfermagem, Solenta foi para cozinha onde se encontrava toda a família. Impossível relatar todas as maravilhas desse encontro em que todos estavam muito envolvidos e verdadeiramente presentes. Contaram histórias da Paraíba, terra natal da família, e finalm…

SEXTO DIA - Dona Divina

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Ao chegarmos na frente da casa  fomos recepcionadas  por Graziela, a neta  de 17 anos que já estava com o portão aberto a nossa espera. Dona Divina tem 79 anos e está acamada em consequência de um AVC.A casa é bem populosa mas  tem uma tranquilidade surpreendente, toda a família, incluindo Natan, de 8 anos, age sempre de forma delicada e respeitosa. Depois de sermos recebidas por Graziela,  foi brotando gente de todo canto. A neta Daniela, com um nenê de um mês no colo, o bisneto Natan, a irmã Elvira de 94, muito forte e lúcida e Claudinei, que talvez seja neto de Dona Divina.  O ENCONTRO
Dona Divina não parece ter a idade que tem e ninguém diria que sofre de graves problemas de saúde. Está sentada na cama, encostada na cabeceira, como quem simplesmente torceu o tornozelo  e está obrigada a receber as visitas no quarto. De cara se abriu por completo para o encontro. A delícia de qualquer palhaço, essas pessoas que só falam sim, que se entregam, que entram no jogo sem questionar... Admira…

SEXTO DIA - Dona Joana

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Ao chamarmos no portão veio uma voz de dentro: "Um minuto, por favor". Era Lúcia, a filha de Dona Joana que mora na casa em frente com suas filhas e que cuida da mãe na parte da tarde, depois que a cuidadora vai embora. Dona Joana tem 83 anos e está acamada há muito tempo decorrente de um AVC. Ela se comunica verbalmente e fica em um quarto, separado das outras casas do terreno,  onde dorme sozinha.  O ENCONTROLúcia foi prender o cachorro que latia desesperadamente como o mais  feroz dos cães. Pura fita, pois Popó conseguiu escapar e veio atrás de Solenta e Terezinha com o rabo abanando. Foi uma confraternização. Solenta ama cães, gatos, coelhos, papagaios... Quando Terezinha foi entrar no quarto de Dona Joana ela estava fazendo suas necessidades fisiológicas (o número 2), em um "trono" improvisado ao lado da cama. Terezinha chamou Lúcia para ajudá-la. Enquanto isso, Solenta e Terezinha ficaram admirando e fotografando as orquídeas que estavam na frente da casa. Muit…

QUINTO DIA - Seu Luiz Pereira

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Regina, a filha de Seu Luiz, foi quem nos abriu o portão. Logo veio Dona Maria, a esposa, duas mulheres fortes e acolhedoras. Seu Luiz está acamado há muitos anos, consequência de um AVC. Tem uma série de enfermidades decorrentes, mas consegue se comunicar verbalmente.
O ENCONTRO Solenta mal havia sido apresentada para seu Luiz, chegou seu neto Denis, de 7 anos. A partir daí, ele revezou com Solenta a condução do encontro. Nas apresentações iniciais aconteceu uma grande "euforia fotográfica". Era Regina fotografando com seu celular, Terezinha fotografando com a máquina da Solenta, Denis apagando, sem querer, foto tirada pela mãe, Solenta pedindo para Denis para fotografar sua mãe, sua avó e seu avô com a máquina que estava sendo usada por Terezinha... Seu Luiz parecia estupefato com tamanha algazarra. Depois, enquanto Terezinha fazia seus procedimentos, Denis levou Solenta para a sala, ele estava empolgadíssimo para mostrar seu uniforme da escolinha de futebol, escolinha do Co…

QUINTO DIA - Dona Cândida

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Chegamos à frente da casa onde se depara um lindo jardim. Fomos recebidas pela sorridente filha Liana, por uma orquídea fartamente florida e pelos latidos de Bruna e Pretinha, as duas cadelas da casa. Dona Cândida tem 87 anos, está acamada em consequência de um AVC e permanece entre a cama e a cadeira de rodas. Ela não consegue falar, mas tem um jeito de se expressar tão próprio que é entendida em quase tudo o que quer dizer. As filhas saem com ela sempre que podem. Bete é a cuidadora amorosa e dedicada e Neguinha é a simpática ajudante da casa.

O ENCONTRO
Foi lindo perceber o espanto contente de Candinha ao ver Solenta. Seus olhos saltaram e um largo sorriso se estampou em seu rosto. Olhava para Liana, Terezinha e Bete com um ar de indagação: "o que é isso?", ou melhor, "quem é essa?" Era um rosto iluminado e Solenta se apaixonou de cara. Como é bom esse amor a primeira vista, principalmente quando correspondido. Solenta pegou em sua mão que era pura maciez e perfum…

QUARTO DIA - Seu Geraldo

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Seu Geraldo tem 91 anos, uma grande lista de males, uma perna amputada e sua mente por vezes o coloca em um passado distante. É acompanhado por uma cuidadora durante todos os dias úteis e pela esposa Zilá, ambas de uma dedicação e carinho que transbordam por todos os lados.


O ENCONTRO  Terezinha tocou a campainha e voltou ao carro para buscar algo que havia ficado para trás. Solenta colocou a cara no portão e uma pessoa apontou no alto da escada, abriu um sorriso e disse: "Vou buscar a chave". Era Nazaré, a cuidadora que tinha, na cabeça, uma tiara que trazia uma fileira de corações vazados. Nesse momento, Solenta ainda não previa que esses corações e a linda rosa na floreira já eram sinais do que seria um encontro inesquecível.  Ao entrarem no quarto onde seu Geraldo se encontrava sentado na cama, Solenta sentiu como se o quarto exala-se um perfume de roupa lavada com amaciante e colocada para secar ao sol. Um cheiro de bom trato. Um quarto pequeno mas que para Solenta pareci…

QUARTO DIA - Seu Miguel

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Chegamos à frente da casa, um sobrado com uma grade que fecha toda a garagem. Sônia, a filha de seu Miguel, nos abriu o portão. Um ar de cansada e dispersos olhos azuis. Seu Miguel tem 88 anos e fica numa cama hospitalar na sala. Sala bastante escura, mesmo quando a luz está acesa. Às vezes, senta na própria cama, mas a maior parte do tempo fica deitado. A sala foi  o único cômodo da casa que Solenta conheceu. O que a fez estar presente a todos os procedimentos de enfermagem de Terezinha. Descobertas de coisas a serem cuidadas, feridas, frieiras nos pés..., uma tosse seca... A esposa de Seu Miguel, Dona Ana, não deu as caras. Era como se sentíssemos a presença de um gato acuado, se escondendo no andar de cima da casa. O ENCONTRO - ou a tentativa dele
Depois que Terezinha terminou seus procedimentos, Solenta tentou chegar, mas não estava fácil. Talvez pela impossibilidade de exploração do ambiente, ou por não estar aquecida o suficiente, ou por não conseguir se libertar de uma situação d…

TERCEIRO DIA - D. Magdalena

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Chegamos na frente da casa e Solenta  ficou deslumbrada com o roseiral repleto de rosas vermelhas. Pegou a máquina fotográfica e registrou aquela beleza. Tomou gosto e registrou outras tantas coisas. Dona Magdalena tem 90 anos e parece uma menininha. Quem cuida dela é seu filho Deílson. Ela teve um tombo que a impossibilitou de caminhar, anda com auxilio de um andador pelo interior da casa e até a frente, mas não sai.
O ENCONTRO
A casa tem um cheiro bem forte característico das coisas antigas. Esse foi o tom do encontro. Uma entrada em um túnel do tempo. Todos os sentidos despertos, tanto que é possível lembrar até os momentos em que Solenta esteve ausente, coisas que ela deixou passar.  Deílson gosta de mostrar as coisas que a mãe faz, como um tricô todo colorido feito de um novelo de restos de lã emendadas, pura poesia. Um pulóver inacabado em consequência de um problema na vista... Quando Dona Magdalena e Terezinha se recolheram para o quarto para procedimentos de enfermagem, Solenta a…

TERCEIRO DIA - S. Luis

A bela cuidadora Alessandra nos abriu o portão. Olhos verdes combinando com a calça. Olhos atentos. Cuida de Seu Luis durante o dia, à noite o filho dele está em casa. Dona Inês é a esposa, uma portuguesa com jeito de desconfiada. Seu Luis não anda e sua expressão verbal exige bastante atenção para ser compreendida. O ENCONTRO Dona Inês poderia ser repórter. Tamanho bombardeio de perguntas a toda hora puxava a Mônica que existe na Solenta. Isso levou a um encontro extremamente verbal sem muita graça e surpresa, um encontro quase cotidiano... Sim, houve momentos de suspensão da falação, com a pequena gaita, o instrumento de terras longínquas e principalmente com a caixinha de música que deixou-os encantados. Seu Luis admirava a vestimenta da Solenta e dizia "Tá tudo combinado". Ele estava ligado em tudo, prova disso é que quando ouviu Terezinha andando da cozinha para o corredor, disse: "Cuidado com o degrau". Precisou repetir isso algumas vezes até que pudéssemos ent…

SEGUNDO DIA -Seu Saturnino

Cristiane a sobrinha abriu o portão e   já  nesse momento foi possível pressentir mais uma cuidadora sofrida e sobrecarregada. Seu Saturnino é o paciente do PAD, respira com ajuda. Recepientes de oxigênio se enfileiram na entrada do quarto. Benedita - Benê a esposa , tem sobrepeso e dificuldade de caminhar, fica deitada na cama ao lado dele. 

O ENCONTRO
Terezinha entrou apresentando Solenta. Benê já foi logo dizendo que a palhaça seria bom para Seu Saturnino, marcando território, como quem diz "Me deixa aqui no meu canto que eu quero saber de coisas mais sérias como - a quantas anda a reforma do hospital, é possível conseguir uma consulta para tal médico... " Mas, aos poucos ela foi se entregando ao momento, às vezes ainda dispersava fazendo perguntas para Terezinha, mas até o final do encontro já estava mais a vontade com a presença da palhaça. Seu Saturnino se entregou logo de cara. Falou, falou e falou. Solenta ouvia atentamente, fazia graça  a toda hora mas ouvia atentament…