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QUINTO DIA - Dona Cândida

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Chegamos à frente da casa onde se depara um lindo jardim. Fomos recebidas pela sorridente filha Liana, por uma orquídea fartamente florida e pelos latidos de Bruna e Pretinha, as duas cadelas da casa. Dona Cândida tem 87 anos, está acamada em consequência de um AVC e permanece entre a cama e a cadeira de rodas. Ela não consegue falar, mas tem um jeito de se expressar tão próprio que é entendida em quase tudo o que quer dizer. As filhas saem com ela sempre que podem. Bete é a cuidadora amorosa e dedicada e Neguinha é a simpática ajudante da casa.

O ENCONTRO
Foi lindo perceber o espanto contente de Candinha ao ver Solenta. Seus olhos saltaram e um largo sorriso se estampou em seu rosto. Olhava para Liana, Terezinha e Bete com um ar de indagação: "o que é isso?", ou melhor, "quem é essa?" Era um rosto iluminado e Solenta se apaixonou de cara. Como é bom esse amor a primeira vista, principalmente quando correspondido. Solenta pegou em sua mão que era pura maciez e perfum…

QUARTO DIA - Seu Geraldo

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Seu Geraldo tem 91 anos, uma grande lista de males, uma perna amputada e sua mente por vezes o coloca em um passado distante. É acompanhado por uma cuidadora durante todos os dias úteis e pela esposa Zilá, ambas de uma dedicação e carinho que transbordam por todos os lados.


O ENCONTRO  Terezinha tocou a campainha e voltou ao carro para buscar algo que havia ficado para trás. Solenta colocou a cara no portão e uma pessoa apontou no alto da escada, abriu um sorriso e disse: "Vou buscar a chave". Era Nazaré, a cuidadora que tinha, na cabeça, uma tiara que trazia uma fileira de corações vazados. Nesse momento, Solenta ainda não previa que esses corações e a linda rosa na floreira já eram sinais do que seria um encontro inesquecível.  Ao entrarem no quarto onde seu Geraldo se encontrava sentado na cama, Solenta sentiu como se o quarto exala-se um perfume de roupa lavada com amaciante e colocada para secar ao sol. Um cheiro de bom trato. Um quarto pequeno mas que para Solenta pareci…

QUARTO DIA - Seu Miguel

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Chegamos à frente da casa, um sobrado com uma grade que fecha toda a garagem. Sônia, a filha de seu Miguel, nos abriu o portão. Um ar de cansada e dispersos olhos azuis. Seu Miguel tem 88 anos e fica numa cama hospitalar na sala. Sala bastante escura, mesmo quando a luz está acesa. Às vezes, senta na própria cama, mas a maior parte do tempo fica deitado. A sala foi  o único cômodo da casa que Solenta conheceu. O que a fez estar presente a todos os procedimentos de enfermagem de Terezinha. Descobertas de coisas a serem cuidadas, feridas, frieiras nos pés..., uma tosse seca... A esposa de Seu Miguel, Dona Ana, não deu as caras. Era como se sentíssemos a presença de um gato acuado, se escondendo no andar de cima da casa. O ENCONTRO - ou a tentativa dele
Depois que Terezinha terminou seus procedimentos, Solenta tentou chegar, mas não estava fácil. Talvez pela impossibilidade de exploração do ambiente, ou por não estar aquecida o suficiente, ou por não conseguir se libertar de uma situação d…

TERCEIRO DIA - D. Magdalena

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Chegamos na frente da casa e Solenta  ficou deslumbrada com o roseiral repleto de rosas vermelhas. Pegou a máquina fotográfica e registrou aquela beleza. Tomou gosto e registrou outras tantas coisas. Dona Magdalena tem 90 anos e parece uma menininha. Quem cuida dela é seu filho Deílson. Ela teve um tombo que a impossibilitou de caminhar, anda com auxilio de um andador pelo interior da casa e até a frente, mas não sai.
O ENCONTRO
A casa tem um cheiro bem forte característico das coisas antigas. Esse foi o tom do encontro. Uma entrada em um túnel do tempo. Todos os sentidos despertos, tanto que é possível lembrar até os momentos em que Solenta esteve ausente, coisas que ela deixou passar.  Deílson gosta de mostrar as coisas que a mãe faz, como um tricô todo colorido feito de um novelo de restos de lã emendadas, pura poesia. Um pulóver inacabado em consequência de um problema na vista... Quando Dona Magdalena e Terezinha se recolheram para o quarto para procedimentos de enfermagem, Solenta a…

TERCEIRO DIA - S. Luis

A bela cuidadora Alessandra nos abriu o portão. Olhos verdes combinando com a calça. Olhos atentos. Cuida de Seu Luis durante o dia, à noite o filho dele está em casa. Dona Inês é a esposa, uma portuguesa com jeito de desconfiada. Seu Luis não anda e sua expressão verbal exige bastante atenção para ser compreendida. O ENCONTRO Dona Inês poderia ser repórter. Tamanho bombardeio de perguntas a toda hora puxava a Mônica que existe na Solenta. Isso levou a um encontro extremamente verbal sem muita graça e surpresa, um encontro quase cotidiano... Sim, houve momentos de suspensão da falação, com a pequena gaita, o instrumento de terras longínquas e principalmente com a caixinha de música que deixou-os encantados. Seu Luis admirava a vestimenta da Solenta e dizia "Tá tudo combinado". Ele estava ligado em tudo, prova disso é que quando ouviu Terezinha andando da cozinha para o corredor, disse: "Cuidado com o degrau". Precisou repetir isso algumas vezes até que pudéssemos ent…

SEGUNDO DIA -Seu Saturnino

Cristiane a sobrinha abriu o portão e   já  nesse momento foi possível pressentir mais uma cuidadora sofrida e sobrecarregada. Seu Saturnino é o paciente do PAD, respira com ajuda. Recepientes de oxigênio se enfileiram na entrada do quarto. Benedita - Benê a esposa , tem sobrepeso e dificuldade de caminhar, fica deitada na cama ao lado dele. 

O ENCONTRO
Terezinha entrou apresentando Solenta. Benê já foi logo dizendo que a palhaça seria bom para Seu Saturnino, marcando território, como quem diz "Me deixa aqui no meu canto que eu quero saber de coisas mais sérias como - a quantas anda a reforma do hospital, é possível conseguir uma consulta para tal médico... " Mas, aos poucos ela foi se entregando ao momento, às vezes ainda dispersava fazendo perguntas para Terezinha, mas até o final do encontro já estava mais a vontade com a presença da palhaça. Seu Saturnino se entregou logo de cara. Falou, falou e falou. Solenta ouvia atentamente, fazia graça  a toda hora mas ouvia atentament…

SEGUNDO DIA - Seu Paulo

Bem que a Terezinha avisou: A casa é bem cuidadinha, cada detalhe pensado no capricho...  Um cremoso suco de maracujá estava sendo feito por Irene, a esposa do Sr. Paulo, Solenta já foi logo degustando aquela delícia. O cuidado com a casa reflete no cuidado esmerado que Irene dedica ao Sr. Paulo. Ela tem regularmente a ajuda do irmão, o que possibilita que ela possa ter momentos de respiro do ofício de cuidar. Sr. Paulo se comunica com os olhos, levemente com a cabeça e esboça um beijo quando solicitado.
O ENCONTRO
Solenta aparece no quarto. Seu Paulo olha. Parece um olhar de espanto, espanto bom ou espanto ruim?  Como saber? Todo um modo de comunicação que é ainda uma grande incógnita para Solenta. As vezes um embaraço, um medo de estar sendo inconveniente.   De repente, surge a pergunta: "Como vocês se conheceram?", feita por Terezinha. Solenta se surpreende com a pergunta que parece ter saído de sua própria  boca. Irene puxa o fio da história. Lá no Cartório Eleitoral de Chã…