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Seny - Primeira Visita

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O relato desta visita poderia tomar muitos rumos ao ter como foco diversos aspectos das condições da paciente e seus familiares. Da condição social, extremamente precária, da sua condição de mulher, mãe de treze filhos, de sua condição de saúde com aspectos inexplicáveis do ponto de vista da medicina. Mas Solenta é somente uma palhaça e em geral sabe reconhecer seus limites. Ela não pode melhorar a condição social de Seny, não pode curá-la, o máximo que pode fazer é estar ali e oferecer toda sua dedicação e presença para aquelas crianças e adolescentes ávidos por atenção.
Não consigo chamar Seny de "dona" como faço naturalmente com todas as outras pacientes, ela só tem 41 anos. Fez um cirurgia na língua para a retirada de um cancêr há quatro anos. Há dois anos teve sua última filha e desde então sofre de uma paraplegia que a faz ficar o tempo todo na cama. Na casa estavam sete filhos: Raíssa, Ronilson, Vilson, Juliana, Vilma (grávida de 5 meses), Valdinéia e Valdirene (mãe d…

D. Adelaide - Primeira Visita

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A partir de hoje começaremos mais uma leva de visitas com novos pacientes, e paciente novo é sempre uma porta que se abre para um novo universo. Solenta, ao mesmo tempo que tem o coração cheio de expectativas, também o tem como uma página em branco para que possa receber o que está por vir. Terezinha e Solenta foram levadas pelo motorista Roberto Serafim, "que sabe tudo do começo ao fim", segundo as palavras dele. Abro aqui um parênteses para dizer que hoje Solenta também ficou conhecendo o caminho que leva até a sala onde ficam os motoristas pois planeja um dia ir lá para um visita surpresa e agradecer pela maravilha que é ser conduzida por eles até as casas dos pacientes. Fecho parênteses. Quando chegamos à frente da casa, Solenta de cara avistou uma dessas bonecas chamadas de "namoradeiras" que ficam debruçadas na janela, toda colorida e enfeitada, vestida de vermelho. Eis que abre a porta da casa a filha de Dona Adelaide, Cidoca, que era a própria boneca com v…

Casamento de Solenta e Antonio

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Solenta e Antonio se casaram dia 30 de setembro, com direito a marcha nupcial, traje a rigor, alianças, padre (na verdade madre Bete), bolo com bonequinhos, champagne (guaraná) e convidadas ilustres. Uma cerimônia que durou não mais que dez minutos mas que foi uma delícia.
Essa saborosa brincadeira é a confirmação de que uma semente lançada em solo fértil, rapidamente germina, cresce e floresce.
Solenta sempre se apronta para as visitas no departamento de enfermagem e, para ela, é uma maravilha iniciar seu contato com o mundo por ali. São pessoas encantadoras que a recebem tão bem que é como se ela sempre abrisse a porta para uma paisagem que enche os olhos, o coração e alma de belezas de todo tipo. Num desses dias, Nonô bateu a porta e, quando Solenta abriu, deu de cara com Antônio. Acontece que Solenta não estava totalmente pronta e Antônio a viu "em roupas quase íntimas." Solenta não teve dúvida quanto à solução para o problema: "vai ter que casar." É preciso o…

SEU SATURNINO - TERCEIRA VISITA

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Lá vamos nós para mais uma visita ao sábio Saturnino. Dessa vez, Solenta e Terezinha estavam acompanhadas de Viviana, estudante do último ano de enfermagem que está fazendo estágio no PAD. Quem nos abriu o portão foi um dos netos e, na cozinha, Solenta foi apresentada a dois dos filhos de S. Saturnino: Olímpio e Marcos. Quando subimos para o quarto, Solenta esperou Terezinha entrar para apresentar Viviana e só depois apareceu para mais um encontro tão aguardado por ela. S. Saturnino logo sussurou lindas palavras de satisfação pelo reencontro com Solenta, e ela verbalizou o prazer de revê-lo. Depois Solenta pegou um pequeno gravador e anunciou que dessa vez estava preparada para guardar todas as coisas bonitas e sábias que ele costuma dizer. Benê, a esposa, que dessa vez estava de cama, deitada ao lado dele, disse: "mas hoje ele não está muito inspirado não." Solenta, discordando, disse: "mas ele já falou tanta coisa bonita aqui." E Benê disse: "ele ainda n…

S. FERNANDO - A ALTA

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Foi bem difícil começar a escrever esse relato. Dois motivos bem óbvios saltam: primeiro por se tratar de mais uma alta e ter que aceitar que não existe, por enquanto, mais perspectiva de encontrar S Fernando; segundo porque, como os encontros anteriores, esse também foi tão belo e profundo e S. Fernando disse tantas maravilhas que não me sinto capaz de reproduzi-las aqui nesse espaço. Mas vou tentar, mesmo que ao final me sinta frustrada com o resultado.
É apenas a terceira vez que Solenta e S. Fernando se encontram, mas a sensação é de que se conhecem de longa data. Solenta, que sempre tem a impressão de que nem sabe em que parte de São Paulo, quiçá do mundo, se encontra, até pode dar dicas ao motorista de qual era o prédio certo, era a primeira vez que ele e a enfermeira Terezinha iam até lá. Fátima, a cuidadora, foi nos esperar lá embaixo para se certificar que o portão estava aberto. Quando subimos até o terceiro andar, a porta do vizinho estava aberta e Solenta avistou quatro …

Seu Geraldo - Terceira Visita

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Como sempre, Solenta e Terezinha foram recebidas pela cuidadora Nazaré com sua tiara de corações. Na floreira do caminho nenhuma rosa aberta, só depois de muito procurar Solenta encontrou alguns princípios de botões a despontar. S. Geraldo já estava para o lado de fora do quarto, na varanda que dá para o quintal, na cadeira de rodas. Solenta apareceu toda animada e saltitante. Nesse intervalo entre a última visita e essa que agora estava acontecendo, Solenta havia recebido uma carta de Creusa, filha de S. Geraldo que ela não teve o prazer de conhecer pessoalmente mas que escreveu para agradecer o trabalho com seu pai e o relato aqui escrito. Nessa carta e nas notícias relatadas por Terezinha, Solenta ficou sabendo que S. Geraldo a chama de Chapeuzinho e que estava aguardando ansioso por uma próxima visita. Por isso tudo, Solenta achava que esse encontro seria radiante como os anteriores, mas não foi bem assim que a coisa aconteceu. S. Geraldo não se mostrou muito empolgado com a prese…

Dona Divina - A alta

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Nessa quarta-feira, depois de duas semanas sem visitas, somente encontros com a equipe do PAD, Solenta se encaminhou para sua primeira alta. Dona Divina teve alta do programa, o que é muito bom pois significa que ela está bem, mas isso também quer dizer que Solenta não mais a visitará. E apesar da visita ter sido uma delícia, divertida e ao mesmo tempo cheia de delicadezas, ela também teve um certo tom de tristeza, sentimento inevitável na maioria das despedidas.
Solenta e Terezinha foram recebidas por Alan, o bisneto de D. Divina. Foi engraçado ter o portão aberto por uma criança tão pequena. Ele não tem mais que 7 anos. Logo chegou D. Elvira, a irmã de 94 anos de D. Divina. Terezinha foi para o quarto e Solenta ainda ficou um pouco na sala com D. Elvira e, ao mesmo tempo em que manifestava a satisfação de reencontrá-la, sempre bem de saúde, ouvia, vindas do quarto, as manifestações de satisfação de D. Divina ao ver Terezinha. Quando entrou no quarto, recebeu o mesmo tratamento afet…

Encontro com a Equipe

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Dr. Cláudio, Dra Eloisa, Ana Sílvia, Mirian, Milena, Rose, Dr. André, Celisa, Ivy, Tererezinha, Dra Célia, Silmara, Solenta, Bete e Ivete

Dia 12 de agosto Solenta foi se encontrar com toda a equipe do PAD. Conheceu pessoas que ainda não conhecia e reviu outras que pouco a pouco vão se tornando próximas.
Esse encontro foi acima de tudo um ritual de agradecimento por fazer parte de uma equipe tão especial. Foram quase cinco meses de trabalho e apesar de Solenta ter trabalhado diretamente, até agora, só com a enfermeira Terezinha, que é quem a acompanha nas visitas (além de um dia com Beth e outro com Ivy), sente que é a equipe toda que dá sustentação a seu trabalho. Assim, ela foi lá agradecer. Foi engraçado, pois a equipe achou que se tratava de uma despedida. Talvez porque não estejamos muito acostumados a receber agradecimentos durante os processos, geralmente eles só chegam ao final. Final de uma história, de um curso, de uma parceria, de uma vida... Solenta gosta de agradecer t…

Encontro com o outro - Citando Jean-Louis Barrault

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Estava eu pensando que o encontro com cada um dos pacientes visitados se assemelhava ao enamoramento por uma pessoa, 0 encantamento de um momento único, quando li o seguinte texto:

"Somos mitades de unidad. El ser reconstituido es la pareja.
...
Ese instante en que los individuos se quedan embobados el uno ante el otro. Se hace un silêncio extraño y se entabla el diálogo subterráneo. El tiempo y el espacio han dejado de existir. Se produce la descarga del Presente. El minuto de la verdad, cuando Torero y toro acaban de reconecerse."

Mi Vida En El Teatro - Jean Louis Barrault - Editora Fundamentos - p. 17

Aqui vai minha tradução ao pé da letra:

"Somos metade de unidade. O ser reconstituido é o casal.
...
Esse instante em que os indivíduos ficam abobados um diante do outro. Se faz um silêncio estranho e se entrava o diálogo subterrâneo. O tempo e o espaço deixam de existir. Se produz a descarga do presente. O minuto da verdade, quando toureiro e touro acabam de reconhecer-se.&quo…

DONA JOANA - O RETORNO

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Fomos recebidas por Daniela, neta de D. Joana. Na casa estavam também Tatiana, a cuidadora, e Tainá, de 7 anos, filha de Daniela. Dona Joana mora em um quartinho na parte de cima do terreno que tem várias casas onde moram dois de seus filhos. Ao entrar no quarto, Solenta teve a sensação de que o sol, que havia aparecido depois de um longo período de chuva e frio, ainda não havia conseguido entrar lá. Janela e cortinas estavam fechadas e D. Joana reclamava de um frio que estava muito mais ameno que nos dias anteriores. Ela estava deitada na cama e ficou feliz com a nossa chegada. Não está sendo fácil fazer o registro desse encontro, não só por que ele é a última visita dessa primeira etapa de retornos e a vontade é de escrever tudo o que ainda não consegui colocar em palavras, mas também porque D. Joana é a prova viva de que gentileza gera gentileza, e conseguir relatar o caminho que traçamos com todas as suas sutilezas é obra homérica. Fiquemos pois no resumo. Quando Terezinha começo…

S. PAULO - O RETORNO

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Na varanda da casa, nos deparamos com um varal repleto de roupas de cama tentando secar. Há dias que chove sem trégua na cidade de São Paulo, até mesmo Solenta, que adora frio e chuva, nesse dia esparramou para os quatro cantos que já estava enjoada desse tempo. As roupas não secam, os ossos resfriam e o corpo fica com uma sensação de sem lugar. Quem nos abriu o portão foi Fabiane, uma moça que ajuda Irene, a esposa. Fabiane não estava na primeira visita e Solenta não a conhecia. Ela já foi logo falando que Solenta não iria fazer nenhum sucesso com S. Paulo, que ele só tinha olhos para Terezinha. E falou tão enfaticamente isso e repetiu tantas vezes que não houve mesmo forma de ser diferente. Como descrevi no primeiro relato, S. Paulo não se expressa verbalmente, só com movimentos de cabeça e olhos e, com a boca, só o beijo que manda quando solicitado. Irene é extremamente dedicada e amorosa. S. Paulo acompanhava Terezinha com o olhar o tempo todo. E Solenta tinha a impressão de qu…

S. SATURNINO - O RETORNO

Quando chegamos em frente à casa, Solenta teimou com o motorista que eles estavam em frente à casa errada. Que nada, a família se mudou. 
Novamente fomos recepcionadas por Cris, a sobrinha cuidadora. E, segundo ela, a casa nova é  bem melhor, sem o carpete que fazia mal para S. Saturnino.  Chegamos ao quarto do fundo, no andar de cima, onde se encontrava S. Saturnino, a esposa Benê, que dessa vez estava sentada na cama ao lado, e Laís, esposa de um dos netos deles. A televisão estava ligada e ficou assim por um longo tempo, pois Laís estava bem interessada no que estava passando, até que Terezinha pediu para desligá-la. S. Saturnino não parecia nem um pouco interessado na TV e ficou bem contente com a visita. O espaço ao lado da cama  era apertado e havia a fileira dos balões de ar, o que dificultou um pouco a aproximação de Solenta, que também  não se sentiu a vontade para se atirar na cama pois a barra de sua saia estava muito molhada e já bem suja apesar de ser a primeira visita do d…

S. SATURNINO - O Mar

Para ouvir S. Saturnino cantando junto com Caymmi

Citando Italo Calvino

Capì questo: che le associazioni rendono l'uomo più forte e mettono in risalto le doti migliori delle singole persone, e dànno la gioia che raramente s'ha restando per proprio conto, de vedere quanta gente c'é onesta e brava e capace per cui vale la pena di volere cose buone (mentre vivendo per proprio conto capita più spesso il contrario, di vedere l'altra faccia della gente, quella per cui bisogna tener sempre la mano alla guardia della spada). Entendam isto: que as associações tornam o homem mais forte e colocam em destaque os melhores dons da pessoa singular, e dão a alegria que raramente se tem ficando por conta própria, de ver quanta gente existe honesta e brava e capaz, pelas quais vale a pena querer coisas boas (enquanto vivendo por conta própria acontece com mais frequência o contrário, de vermos a outra face das pessoas, aquela pela qual é preciso ter sempre a mão na guarda da espada). Italo Calvino, I Nostri Antenati, p. 192, Oscar Mondadori, 2008.

SEU JOÃO - O RETORNO

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Sempre que começo um relato, me pergunto se conseguirei ou não passar a atmosfera que permeou o encontro. Às vezes consigo e às vezes não passo nem perto. No caso de S. João, gostaria de passar, além da atmosfera, a transformação que foi se dando desde o tocar a campainha do primeiro encontro até o final desse segundo. D. Neli, a esposa de S. João, estava nitidamente exausta em nossa primeira visita, e no início dela não estava vendo muito sentido na presença de uma palhaça na casa. Aos poucos foi se abrindo e ao término desse primeiro dia já estava completamente transformada. E nosso segundo encontro já partiu desse ponto. Quando tocamos a campainha já pudemos perceber a euforia das netas que esperavam no pequeno quintal, que é dividido com outra casa. Veridiana e Verônica não estavam no primeiro encontro e elas estão agora passando uma semana de férias com os avós. Além das duas, mais duas vizinhas estavam com elas: Mariana e Gabriela. Gabriela, a mais velha, de 13 anos, correu para…

O Forró Improvisado

Verônica, Veridiana e Solenta dançam O Siri Jogando Bola. Filmado por Mariana

DIVINA - O RETORNO

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Ao chegarmos à casa fomos recebidas pela nora de D. Divina, Maria Inês que mora em Araçatuba e veio passar uns dias por aqui. Na casa, Alan e Nathan, bisnetos, as netas Daniele e  Gabriele, de 15 anos, que agora é a cuidadora de D. Divina, e Elvira, a irmã de 94 anos. Como da outra vez, nenhum deles interferiu na visita. Ficaram na sala e só se achegaram quando foram convocados. Somente Elvira ficou por perto, buscou cadeira, ofereceu conforto. Apesar de D. Divina estar avisada da visita, até parecia que era surpresa, tamanha a euforia do encontro, do abraço.  Divina e Solenta falaram de saudade e falta, coisas que nos acometem quando ficamos tempos sem um encontro com pessoas queridas. D. Elvira trouxe uma cadeira para Solenta sentar, mas ela preferiu ficar ali ajoelhada ao pé da cabeceira de D. Divina para ficar pertinho, de mãos dadas... Divina disse várias vezes que sentiu saudades de Terezinha também. "A gente sente saudades de quem a gente gosta, vocês me fazem muito bem, me …

Divina e Graciosa

Divina cantando a Rosa

MAGDALENA - O RETORNO

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Ao chegarmos à frente da casa nos deparamos com D. Magdalena, toda agasalhada, sentada de frente ao jardim. tomando um solzinho tímido e morno. Em tempos de dormência, apenas uma pequena rosa despontava do grande roseiral. Pequena e delicada como D. Magdalena. Ela ficou bem feliz de nos ver e nos perguntou se gostaríamos de entrar. Solenta disse que só se ela fizesse questão, pois ela preferia ficar ali "céu a aberto." O filho dela, que estava dentro da casa, também veio nos receber e, quando Solenta o chamou de Deílson, ele corrigiu: "Deocleir." Solenta ficou pasma por ter confundido  o nome dele por muito tempo. Ele disse que não gosta muito do nome e que todos o chamam de Cleir. Logo no começo do encontro chegaram João e Josefa, que haviam ido levar a comunhão para D. Magdalena. Como tinham outras casas para ir lá por perto, resolveram voltar mais tarde. Mas depois isso aconteceu de novo, pois quando retornaram, Solenta ainda estava pelo meio do encontro. Solent…

S. Luís Tavares - O retorno

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Tocamos a campainha algumas vezes e de dentro só silêncio. Então Solenta gritou "ô de casa!", ao que uma voz respondeu: "pode entrar." São muitos degraus até chegar à casa. D. Inês, a esposa de S. Luís, apareceu lá no alto, na frente da porta da sala. Abraço e beijo caloroso, foi uma boa recepção. Alessandra, a cuidadora, sempre sorridente. S. Luis ficou bem feliz ao ver Solenta e mais feliz ainda ao ver Terezinha com seu novo corte de cabelo que ele não cansou de elogiar até o final do encontro. "Tá bonita, ficou jovem, moça." Solenta, D. Inês e Alessandra fizeram coro concordando com ele. D. Inês começou a declamar: "Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão..." e Solenta puxou a canção que elas cantaram juntas.  "Terezinha de Jesus, de uma queda foi ao chão. Acudiram três cavaleiros, todos três, chapéu na mão. O primeiro foi seu pai, o segundo seu irmão, o terceiro foi aquele que Tereza deu a mão." Foi um afago no coração assistir D. In…