Postagens

S.João - Retorno do retorno do retorno do.....

Imagem
“Nada em rigor tem começo e coisa alguma tem fim, já que tudo se passa em ponto em uma bola; e o espaço é o avesso de um silêncio onde o mundo dá suas voltas.”


É assim, peço inspiração de Guimarães Rosa para escrever esse relato que deixei assentando por mais de um mês. Sempre me sinto pequena ao escrever um relato, um minúsculo cisco no “ponto em uma bola”, incapaz de descrever a mínima parte do que sucedeu.
Esse é o quarto encontro com S. João e sua família e a cada um deles é como se andássemos para trás e para a frente a um só tempo. A cada vez, se descortina um pouco mais da história de S. João, seu passado, seus passos, seus atos. A cada vez, sinto solidificar a construção de um vínculo que pede futuro.
S. João mora com D. Neli,  esposa e cuidadora 24 horas por dia, todos os dias da semana. Está na cama há oito anos. Durante as férias escolares, eles recebem a companhia da netas, Veridyana e Verônica, que passam alguns dias com eles. Por isso o compromisso de Solenta de voltar se…

S. Adauto - Primeira Visita e Retorno

Imagem
Já se passaram quatro meses desde que fiz a primeira visita e não consegui escrever o relato do encontro. Dessa vez, ao invés de me queixar sobre o aperto do tempo, e o quanto me pesa não poder me dedicar o quanto eu gostaria a esse trabalho, resolvi juntar o relato das duas visitas e vamos ver no que dá.
 S. Adauto é um paraibano prá lá de bem humorado. Nasceu em 31/01/1941. Na primeira visita soube um pouco da sua origem, mais um paciente oriundo da terra de nosso querido Luis Gonzaga, e a de sua esposa, Ademildes, vinda de Aramaia, no estado da Bahia.  S. Adauto tem uma chácara na cidade de Ibiuna, local onde praticava um de seus prazeres: cuidar da terra. Na época da primeira, visita havia pouco tempo que seu cavalo Campeão havia caído na fossa e foi encontrado morto. S. Adauto estava bem triste, mas nem por isso perdeu seu humor. Propôs para Solenta várias charadas do tipo: "qual a diferença entre a bicicleta e o banheiro?" Solenta coçava, coçava a cabeça e não conseguia …

Zefferina - Primeira Visita

Imagem
Segunda visita do dia. Com uma chuva ameaçando cair, chegamos à casa de D. Zefferina. Árvores, um pé de uvaia, um de pitanga e muitas plantas.  Quem nos recebeu ao portão foi a filha Roseli, Rosa para os familiares e Rô para Solenta. D. Zefferina tem 79 anos, nasceu no dia15 de janeiro de 1932, e está se recuperando de um AVC. Na casa estava também a filha Nanci. D. Zefferina fez uma expressão de surpresa boa ao avistar Solenta, que entrou na frente antes de Terezinha apresentá-la.  A visita foi uma delícia e Rosa e Nanci foram muito receptivas. A cadência do encontro foi bem calma e deixou uma sensação de serenidade e aconchego, com direito a longos silêncios enquanto avistávamos a chuva que caía mansamente lá fora. Nanci e Rosa contaram da evolução da mãe que começa a caminhar sozinha com o auxílio de seu "cachorrinho" (ver foto abaixo), que pensamos em batizar, já que ele ainda não tinha nome. Dani, a estagiária de enfermagem que estava nos acompanhando, sugeriu o nome de…

Ana Catulina - Primeira Visita

Imagem
Dona Ana Catulina tem 98 anos e sofre de insuficiência cardíaca crônica. Quando chegamos ela estava deitada, mas quis se sentar para nos receber.
Ela tem 6 filhos, 22 netos, 24 bisnetos e 4 tataranetos. Ufa!! uma família prá lá de grande.
Quem nos recebeu foi Carmem, casada com um dos netos de D. Ana. Ela não ficou durante o encontro, mas a recepção foi muito boa.
Parece que, às vezes, eu acabo esquecendo o quão inusitado pode ser a chegada inesperada de uma palhaça em uma casa. É claro que, com o advento dos Doutores da Alegria, as pessoas já conseguem enxergar algum sentido, fazer alguma conexão. Mas a dimensão da peculiaridade do trabalho em questão, só a partir do próprio encontro. E cada encontro segue um rumo próprio que, às vezes, penso em categorizar. Coisas como: esse foi um encontro de comadres, esse foi um encontro bem palhaçal, esse outro mais denso, esse forte, aquele leve... e assim por diante. Mas confesso que não consigo estabelecer categorias fixas que possam me nort…

A saia de Solenta ou "A roda de amor"

Cinquenta por cento da minha formação de palhaça vem de berço. Não, não há nenhum palhaço profissional na família e tampouco desenvolvo trabalhos da tradição circense, baseados em números clássicos e de habilidades corporais de toda espécie, como acrobacia, equilibrismo, malabares. O trabalho que faço está centrado na (inter) relação com as pessoas. Improviso e relação são as palavras chaves de meu trabalho. Relação com o aqui e agora, com cada ser que se dispõe ao "jogo" com essa figura de nariz vermelho. Bom, mas para não perder o fio voltemos ao berço. Sei que hoje posso fazer um trabalho que transborda afeto pois tive na minha história e tenho até hoje uma família extremamente amorosa. E no meu caso foi uma família tradicional, no sentido de ter pai, mãe, irmãos, tias, primos... Natal barulhento. Mas, entendo que o sentido de família pode ser muito mais amplo. Famílias modernas de dois pais ou duas mães, de amigos que se escolhem para estar juntos e se cuidarem, irmãos, …

D. Rosalina - Retorno

Imagem
Quando chegamos à frente da casa, Terezinha quis tirar uma foto de Solenta antes de entrarmos. Uma moça, de nome Sônia, que estava sentada na calçada do outro lado da rua, correu para sair na foto também. A casa estava cheia. A filha Esalina, o filho Arlindo, a cuidadora Ester e mais uma ajudante de cuidados, se não me engano, de apelido Ira. Fui para esse retorno sem saber muito o que esperar dele, pois na primeira visita D. Rosalina estava com dor e o encontro transcorreu com o tempo arrastado, contudo, ele me deixou o caminho para a volta. Um caminho de três tempos. Um caminho de valsa. Tcha, tcha, bum... tcha, tcha, bum
Primeiro tempo: tempo de reconhecimento. Quando  Solenta entrou, D. Rosalina não a reconheceu e a chamou por outro nome. Aos poucos, D. Rosalina foi se abrindo. A cuidadora Ester é extremamente competente e afetiva e dá para sentir como D. Rosalina melhorou desde a última visita, quando a  cuidadora ainda era outra pessoa. Nesse primeiro momento, Solenta entregou um…

Antonio e Linez - Retorno

Imagem
Antonio é o paciente do PAD e Linez é sua esposa e cuidadora. Foi a segunda visita do dia e Solenta estava ansiosa por esse retorno. É que a primeira visita tinha sido tão boa que o gostinho de quero mais ficou cutucando até o reencontro. Entre uma visita e outra, Solenta encontrou Linez nos corredores do HU (Hospital Universitário) e ficou tão feliz que fez a maior folia! Esse encontro foi lembrado por Linez mais de uma vez nessa visita e foi impressionante o efeito que teve sobre ela o simples fato de Solenta lembrar seu nome e perguntar por seu marido. Como esquecer Linez? Ela é de uma simpatia e um aconchego que deixam Solenta toda derretida. Nesse retorno, Solenta teve a oportunidade de conhecer Elaine, filha do casal. Elaine aparenta ser uma pessoa calma e bem tímida, uma delicadeza. Mais uma pessoa da família de que Solenta fica fã. Ainda falta conhecer a neta Samira que sempre está na escola no período da tarde, momento das visitas. O encontro, como era de se esperar, foi muit…